Acupuntura como Terapia de Suporte na Oncologia

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Vários são os sintomas que acometem um paciente oncológico. E múltiplos são os fatores envolvidos na etiologia de seu quadro: invasão tumoral, metástase, anemia, polifarmácia, efeito colateral da quimioterapia e/ou da radioterapia, hipogonadismo, disfunção autonômica, e liberação de citocinas inflamatórias.

Nem sempre a terapia dita “convencional” consegue sanar todas as questões pertinentes a esses pacientes. Por isso, é cada vez mais frequente a associação do tratamento de base com a Acupuntura como método complementar.

A busca de estudos na literatura médica que fundamentem essa parceria pode ser de grande frustração. A maioria dos estudos envolvendo acupuntura tem muitos pontos a serem questionados, por exemplo: habilidade de quem realizou a prática do agulhamento, a omissão de pontos de acupuntura importantes, heterogeneidade dos controles e das medidas dos resultados.

Mesmo com todas essas barreiras para solidificarmos o papel da Acupuntura ao lado dos pacientes oncológicos, os manuais de conduta em terapias de suporte recomendam-na com base nos benefícios já comprovados, e nos que são promissores e aguardam estudos melhores para definição.

Além disso, quando executada por profissionais devidamente habilitados, a Acupuntura é segura e com poucos eventos adversos. Deve ser considerada, no mínimo por tanto, para o paciente oncológico cujas opções oferecidas pelo tratamento convencional já foram esgotadas.

Visando impactar a qualidade de vida dos pacientes, a Acupuntura oferece possibilidade de atuação sobre diversos sintomas e diagnósticos: fadiga, dor, xerostomia (boca seca), mucosite (ulcerações orais, por exemplo), linfedema, anorexia, náuseas e vômitos, insônia, soluços, ondas de calor, ansiedade, depressão. Abaixo, alguns apontamentos são destacados:

  • Fadiga: é considerada a queixa mais frequente, e para a qual mais faltam opções no tratamento convencional. O paciente sente-se exaurido física e mentalmente, sem obter melhora com o repouso. Essa condição se deve ao próprio câncer, ou ao seu tratamento.
    Devem ser excluídas as comorbidades que se relacionam com o quadro, como anemia, descompensação cardíaca e infecções oportunistas. Descartadas as justificativas orgânicas, podemos direcionar nossos esforços para o reequilíbrio energético desses pacientes.
    Pontos como VC-17, VC-12, VC-6 e E-36 são muito importantes quando a fadiga está associada à deficiência de Qi. Como é frequente nesses pacientes a associação com a deficiência de Xue, quando assim diagnosticado, pontos com grande benefício são BP-10, B-17, BP-6, VB-39, IG-16.
    Quanto ao envolvimento dos Meridianos Curiosos, a fadiga relaciona-se com o Yin Qiao Mai. A deficiência energética deste Meridiano (por onde circula calor orgânico proveniente do Shen-rins), traz como consequência a deficiência deste calor ao encéfalo pela via do B-1. Pontuar R-6 e seu acoplado P-7, além de outros diversos benefícios, contempla o equilíbrio desse sistema energético.
    Importante destacar também o papel do Shen-rins como grande fornalha energética do nosso corpo. Pesquisar a presença de deficiência de Yin ou de Yang do Shen-Rins e primar por sua tonificação.
    Alguns pontos que foram citados como utilizados nos estudos são: R-2, R-3, BP-6, F-4, VC-4, VC-6, E-36, P-9, TA-6.
  • Náuseas e Vômitos: Excelentes trabalhos consolidaram o uso da acupuntura como tratamento para a náusea aguda. Por isso, sessões de acupuntura dentro das primeiras vinte e quatro horas da quimioterapia seriam bem indicadas. Há também a possibilidade de associarmos as sessões de acupuntura com os anti-eméticos ao longo do tratamento no caso de persistência dos sintomas. Os pontos que mais se destacam nos estudos são CS-6 e E-36, além de citado o uso de F-3 e IG-4. Também são importantes para o quadro referido: VC-12, VC-15 e BP-4.
  • Xerostomia: Revisões sistemáticas apontam que o paciente se sente melhor após a sessão de acupuntura para a xerostomia induzida pela radioterapia. Há os que notifiquem melhora do fluxo salivar e da qualidade de vida. Dentro da mesma ideia para o tratamento da mucosite orofaríngea, devemos destacar a importância do Yang Ming sobre a face, e dos benefícios do IG-1.
  • Dores: Ocorrem como complicação direta da neoplasia (como no caso do Mieloma Múltiplo) ou como efeitos colaterais do tratamento (tais como neuropatia, mialgia e artralgia). Estudos já evidenciaram a favor da acupuntura: redução da intensidade da dor, obtenção de analgesia de forma mais rápida do que com opióides, e uma maior persistência do efeito analgésico. Inclusive, há estudos que demostram efeitos positivos da acupuntura sobre as dores articulares secundárias a inibidores de aromatase, com duas sessões por semana.

Quanto ao tratamento da dor, sugerimos o uso de microssistemas além da circulação dos meridianos acometidos. O ponto TA-16 merece destaque também, pois como parte dos Meridianos Distintos, está envolvido na atuação do quadro emocional frente à dor relatada.

  • Linfedema: Há estudos que mostram efeitos positivos da acupuntura em linfedemas decorrentes das mastectomias com esvaziamento axilar. Outros demonstram melhora da sensação do peso sem efetiva redução volumétrica.
    Para o tratamento, checar a correção energética necessária do Pi, e utilizar pontos de drenagem como BP-9 e VC-9.
  • Anorexia: pode ter algum benefício acupuntura auricular. Checar correção energética necessária do Pi. Há também o uso de VC-12 com quatro agulhas equidistantes ao redor na forma de cruz (técnica da flor de ameixeira).

Na visão da Medicina Tradicional Chinesa, cada desequilíbrio energético pode ter diversas causas, e pode ser potencializado por deficiências e excessos particulares ao indivíduo tratado. Nossa intenção, portanto, ao citarmos pontos de acupuntura, é apenas a de ajudar nossos colegas médicos dentro do raciocínio que elaborarão para beneficiar seus pacientes.

Com o exposto acima em mente, podemos sugerir algumas perspectivas. Uma delas seria a de que a quimioterapia atuaria como um grande calor perverso. Queimando todas as células que se replicam no corpo, como as da mucosa e da medula óssea por exemplo. Isso encaixa com a ideia de que os efeitos colaterais da quimioterapia podem se intensificar com a sucessão dos ciclos de tratamento. Pontos de dispersar calor como IG-4, IG-11, VG-14, e pontos tings são recursos valiosos. Importante destacarmos que raramente esses pacientes têm condições de sangria dos tings.

Como o agente perverso foi inoculado diretamente no sangue e circula por ele, a ideia de refrescar o Xue reforçaria a visão protetora: BP-10, B-17 e B-40.

Quanto aos Meridianos Curiosos, Yin Qiao Mai (R-6) e Ren Mai (P-7) sempre serão úteis, pois há acometimento generalizado sobre o organismo. O Meridiano Chong Mai (BP-4) e seu acoplado Yin Wei Mai (CS-6) também são importantes, pois se relacionam com o trato gastrointestinal, que é alvo de destaque nos efeitos colaterais da quimioterapia.

No caso do raciocínio terapêutico envolvendo os Meridianos Distintos, CS-1 deve ser lembrado, pois está envolvido tanto na gênese quanto na manutenção das células neoplásicas. Acrescentar outros pontos de acordo com a emoção que se destaca na história do paciente.

Cabe-nos apontar também, o benefício de pontos que visam acalmar e clarear a mente (como Yintang).
Tonificar o paciente depois de retirar o Xie Qi, com o menor número de agulhas possível é sempre um desafio. Usar VC-12 com VC-4 intencionando atingir a Raiz do Qi pós-Celestial e a Raiz do Qi pré-Celestial respectivamente é uma possibilidade. Outro ponto que se destaca é o BP-6, pois tem ação simultânea sobre o Pi, o Shen-rins e o Gan.

Enfim, que possamos sempre usar todos os recursos de que dispomos dentro da prática da acupuntura, visando atuarmos o mais próximo possível da nascente do problema, e não apenas na desembocadura dos sintomas.
Referência Bibliográfica:

1. Lau CH1, Wu X, Chung VC, Liu X, Hui EP, Cramer H, Lauche R, Wong SY, Lau AY, Sit RS, Ziea ET, Ng BF, Wu JC. Acupuncture and Related Therapies for Symptom Management in Palliative Cancer Care: Systematic Review and Meta-Analysis. Medicine (Baltimore). 2016 Mar;95(9):e2901.

2. Posadzki P1, Moon TW, Choi TY, Park TY, Lee MS, Ernst E. Acupuncture for cancer-related fatigue: a systematic review of randomized clinical trials. Support Care Cancer. 2013 Jul;21(7):2067-73

3. Towler P1, Molassiotis A, Brearley SG What is the evidence for the use of acupuncture as an intervention for symptom management in cancer supportive and palliative care: an integrative overview of reviews. Support Care Cancer. 2013 Oct;21(10):2913-23

4. Lian WL1, Pan MQ, Zhou DH, Zhang ZJ.Effectiveness of acupuncture for palliative care in cancer patients: a systematic review. Chin J Integr Med. 2014 Feb;20(2):136-47

5. Livro “A Arte de Inserir”, Ysao Yamamura, 2º edição editora Roca, 2004.

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